- Will! Já que está aí, guarde esse para mim também! - na ponta dos pés, ela estendeu um livro de volume considerável para o rapaz, em cuja capa se lia, em letras rebuscadas, o título "Mecânica do Novo Século". - É na prateleira de cima.
- Claro, Grace. - ele recebeu o livro com expressão tranquila, estremecida assim que deu uma folheada casual nas páginas. Após um segundo de horror contido, uma tristeza conformada tomou o lugar do sorriso. - Por que você continua fazendo isso?
- Isso o quê? - ela retrucou melodiosamente, como uma criança plenamente consciente de sua travessura. Já perdera a conta de quantas conversas semelhantes tiveram, e não esperava que essa fosse a última.
- Você sabe. Toda essa maldade. - William mostrou a ela o livro aberto, apontando as anotações, palavras sublinhadas e diferentes cores de tinta em meio ao conteúdo original. Desde o primeiro momento em que o testemunhara, esse era um hábito incompreensível para o rapaz.
- Não é maldade, senhor. É amor. - disse sem um pingo de ironia - De que adianta algo passar pelas suas mãos e não levar nenhuma marca? É como se nunca o tivesse tocado! Como seus romances impecáveis, impossíveis de adivinhar se você já os leu ou não, e se os conhece tão bem quanto deveria.
- E amar não é também preservar? Admirar em sua forma mais pura, contemplar a simples existência. Não é preciso provar ou alterar nada nessa relação, ao menos não fisicamente. A mudança não é tangível, e apenas a alma sabe exatamente o caminho transcorrido.
A essa altura, os dois já se encontravam frente a frente, esforçando-se para não rirem da pequena discussão enquanto fitavam os olhos um do outro.
- Mas talvez, apenas talvez, você tenha um pouco de razão. - disse o casal em uníssono, unido em sua discordância.
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