A reunião com os pais estava demorada na sala da diretora
enquanto o menino, encolhido na ponta de uma longarina, olhava para dentro
através do vidro da porta fechada, sem poder escutar nada. Os olhares tensos
dos 3 eram tudo o que havia para ser decifrado. Suas notas não eram nada boas,
então ele sabia que coisa boa não podia ser.
O papel sobre a mesa comprovava o medo da criança. Ao lado
dos três, dos quatros, dos dois e meios,
estava a anotação em tinta vermelha de caneta: “Sonhador demais”.
Podia até ser uma exposição mais abstrata para algo
psicológico interno, mas olhando assim por cima, até que poderia se dizer que
era verdade. Tudo se tornava gatilho para que a fantasia tomasse conta. Haviam
animais correndo pelos escritos da professora no quadro. Os números dos
exercícios incompletos do caderno de matemática dançavam pelo papel. As árvores
cochichavam entre si segredos no canteiro da rua de trás. E também em casa, as
listras papel de parede do seu quarto eram em uma praia cujos castelos de areia
eram os mais lindos que poderia haver. Como estudar enquanto todos os bondes
que passavam fora o chamavam para brincar a cada cinco minutos.
As chamadas das professoras eram um anzol que o trazia para
a realidade da mesma maneira que rasgava
as bochechas de um peixe para fisgá-lo. Eram constantes e todos já estavam
cansados disso.
A diretora, pois, teve que dar atenção ao caso. E o plano
estava elaborado. Ela olhava os cantos do papel, que estava sob o boletim, como
se pudesse vislumbrar tudo realizado. Ao revelá-lo, as reações não eram bem as
que ela esperava. Havia um pouco de medo em face de uma medida tão extrema. Mas
os pais, pensando em um futuro para a criança, aceitaram. Não queriam ver o
menino virando cobrador do bonde, vendedor de vassouras em uma esquerda
qualquer, vender coco na praia de Copacabana.
O menino havia de estudar, datilografar, ser culto. Estar nas altas
cúpulas da capital do Brasil.
O colete tinha pequenos eletrodos e uma bateria próxima às
costas. A cada tantos, ele soltava uma pequena carga sobre a criança,
trazendo-a para o mundo real. Nada demais, segundo a diretora. O menino, magro
e desajeitado, tomaria rumo de encontro aos destinos traçados pelos pais.
O menino estava apreensivo quando chegaram seus pais, com
uma caixa nas mãos, e um olhar ao mesmo tempo amedrontado e assustador. A
partir da manhã seguinte, o menino já chegava na escola com sua nova
vestimenta. Era relativamente discreta. Era colocada por baixo do paletó da
escola. A cada 5 minutos, um choque. Não doía, apenas coçava um pouco. A
coceira era seguida por um movimento involuntário com a cabeça, como alguém
despertando.
Após as primeiras semanas o corpo já foi acostumando aos
pequenos choques. Estava sempre alerta. A resposta positiva dos seus
professores fazia, a cada dia, o menino menos se importar com o tratamento de
choque. E nesta toada os anos foram passando. Suas notas aumentavam bimestralmente. Ele era assertivo
nos cálculos e nas datas. Terminou a escola como um ótimo aluno. Nos eventos
sociais da família, ele era o orgulho da família. Os amigos dos pais, cujos
filhos contavam do desempenho do menino – mesmo que sem saber do artifício
elétrico – olhavam para o jovem como um pequeno gênio.
Anos passaram e José, o menino que desaprendeu a sonhar,
estava lá, de malas prontas. Sairia para Brasília daqui algumas horas. Era tudo
uma loucura. Novidades aguardavam em uma cidade feita para ser o centro do
mundo. Sua cadeira estava lá, esperando em uma das salas projetadas pelo Oscar,
um grande amigo da família.
O ônibus partiu.
Os dias passaram.
Os telegramas vinham.
Os meses passaram.
Os telegramas vinham.
Mas, certo dia, pararam de vir.
Não havia notícias de José havia dias.
O pai decidiu partir para Brasília imediatamente. A mãe
perguntava-se a cada instante o que poderia ter acontecido. Ele nunca deixou de
dar notícias.
Chegando em Brasília sob um calor infernal, não foi perdido
tempo. O casal entrou em um taxi e seguiu diretamente para a esplanada. Seguiu
para o edifício do Ministério do Interior. Subiram as escadas e deram com um
corredor longo. Na penúltima porta havia uma placa na qual estava escrito: “Secretário
Geral da SUDESUL: Dr. José Alves Filho”.
Bateram na porta e não tiveram resposta. Abriram, pois, e se
depararam com uma mesa vazia, uma cadeira executiva e uma chave de armário.
Testaram a chave em todos os lugares, porém sem sucesso. Ao ir embora, chegando
ao térreo da edificação, se depararam com um armário próximo ao balcão da
recepção. Era um guarda-volumes. Havia dezenas de portas, mas o número era
certo. Encaixaram a chave na porta numero 47, o número da sala visitada, e após
o movimento de abertura, a luz penetrou no armário e revelou uma caixa envolta
em papel pardo. Sobre a caixa, não havia nome, não havia data ou algo que
pudesse identificar.
Havia apenas um pequeno envelope colado no canto inferior.
Dentro do envelope, um papel escrito em caligrafia perfeita
e claramente reconhecível:
“Me desculpem, mas preciso sonhar novamente.”
Pegaram a caixa e, sem abrir, jogaram na lagoa para jamais
ser aberta.
Jamais ouviram falar no doutor José Alves Filho. Talvez
tenha ido para algum lugar viver a vida. Ser um cobrador de ônibus.
...
Ou, quem sabe, se tornar um ótimo vendedor de vassouras.
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