O dia virou noite de repente.Apenas aqueles que olhavam o céu naquele exato momento viram as nuvens cobrindo o azul em seu passo constante. Fiapos esbranquiçados se desgarravam do maciço cinza-chumbo, dando a impressão de estarem tão baixos que se poderia roçá-los com as pontas dos dedos. Algumas pessoas não ousaram estender as mãos para o alto com medo de realmente o conseguirem.
No alto do rochedo sob a nuvem que crescia, uma Torre solitária observava a vida acontecer com suas muitas janelinhas mirando o mundo a sua volta. Numa dessas janelas havia uma moça de longas madeixas azuis que flutuavam no ar a sua volta e olhos profundos a observar uma figura estirada no sofá. A figura caminhava no mundo diáfano entre a realidade e os sonhos tentando discernir o que era de um e o que era do outro. Então seus olhos semi-cerrados focaram na moça de azul em sua janela e ela soube imediatamente a qual mundo pertencia.
– Olá, Aqua – a jovem Senhora saudou a moça de azul, que não esboçou reação, mantendo o rosto indolente apoiado nas mãos. – Faz tempo que não a vejo.
– Tive a impressa de que me chamava.
– Deve ter sido num sonho.
– Devia aprender a controlar seus sonhos lúcidos. Os ventos que invoca puxam meus cabelos com uma força que me incomoda.
– Sinto muito. Você é uma boa amiga, nunca foi minha intenção incomodá-la.
– Não é só eu. A Menina, na cidade, geralmente tão corajosa, não consegue dormir com as suas tempestades e se encolhe ao som dos trovões.
– Mas você se esquece do lado bom, Dama da Água. O Menino, sempre tão tímido, rouba a força do raio e desafia a chuva de peito aberto, encontrando uma coragem que de outra forma não sentiria.
A Moça de Azul endireitou a postura e esticou as pernas, balançando-as sob o parapeito. Seu rosto de menina não era suficiente para esconder a idade de seus olhos profundos e escuros com o oceano, ainda mais quando ela tinha aquela expressão indagadora de quem divaga sobre coisas infinitas.
– Às vezes… Às vezes me pergunto se o lado bom das coisas compensa todo o mal que elas causam.
– As coisas ou as pessoas?
A Moça de Azul não respondeu nem sequer piscou, apenas encarou-a com seu olhar sereno e indagador. Com um suspiro, a Senhora continuou:
– Sei que seu coração preferiria apenas envolver-se com os aspectos mais gentis da sua natureza, nutrindo, refrescando, trazendo vida. Mas já parou para pensar que até as enchentes podem ter seu lado positivo?
– Assim como as gentis garoas tem seu lado negativo, sim – Aqua respondeu.
– Talvez não seja uma questão de compensação, então, mas sim de aceitação e convivência.
– Talvez – ela admitiu, pensativa.
Depois de algum tempo em silêncio, a Senhora sorriu.
– Diga, velha amiga, fui realmente eu quem a chamou ou você ouviu um eco num de meus sonhos?
– Eco? Não… Talvez tenha sido um reflexo.
No instante seguinte, não havia mais moça nenhuma na janela, apenas a chuva e o vento que começavam a fustigar as venezianas. A Senhora foi até ela para fechá-la, mas demorou-se alguns instantes a observar as águas da baía lá embaixo ameaçando engolir a cidade distante com suas ondas escuras.
– Você é uma amiga complicada, Aqua. Mas talvez seja exatamente por isso que nas maiores alegrias e nas piores tristezas derramamos algumas gotas de ti como uma homenagem à Existência. Ou seria à Dualidade? Às vezes não sei se são a mesma pessoa ou apenas gêmeas.
No alto do rochedo sob a nuvem que crescia, uma Torre solitária observava a vida acontecer com suas muitas janelinhas mirando o mundo a sua volta. Numa dessas janelas havia uma moça de longas madeixas azuis que flutuavam no ar a sua volta e olhos profundos a observar uma figura estirada no sofá. A figura caminhava no mundo diáfano entre a realidade e os sonhos tentando discernir o que era de um e o que era do outro. Então seus olhos semi-cerrados focaram na moça de azul em sua janela e ela soube imediatamente a qual mundo pertencia.
– Olá, Aqua – a jovem Senhora saudou a moça de azul, que não esboçou reação, mantendo o rosto indolente apoiado nas mãos. – Faz tempo que não a vejo.
– Tive a impressa de que me chamava.
– Deve ter sido num sonho.
– Devia aprender a controlar seus sonhos lúcidos. Os ventos que invoca puxam meus cabelos com uma força que me incomoda.
– Sinto muito. Você é uma boa amiga, nunca foi minha intenção incomodá-la.
– Não é só eu. A Menina, na cidade, geralmente tão corajosa, não consegue dormir com as suas tempestades e se encolhe ao som dos trovões.
– Mas você se esquece do lado bom, Dama da Água. O Menino, sempre tão tímido, rouba a força do raio e desafia a chuva de peito aberto, encontrando uma coragem que de outra forma não sentiria.
A Moça de Azul endireitou a postura e esticou as pernas, balançando-as sob o parapeito. Seu rosto de menina não era suficiente para esconder a idade de seus olhos profundos e escuros com o oceano, ainda mais quando ela tinha aquela expressão indagadora de quem divaga sobre coisas infinitas.
– Às vezes… Às vezes me pergunto se o lado bom das coisas compensa todo o mal que elas causam.
– As coisas ou as pessoas?
A Moça de Azul não respondeu nem sequer piscou, apenas encarou-a com seu olhar sereno e indagador. Com um suspiro, a Senhora continuou:
– Sei que seu coração preferiria apenas envolver-se com os aspectos mais gentis da sua natureza, nutrindo, refrescando, trazendo vida. Mas já parou para pensar que até as enchentes podem ter seu lado positivo?
– Assim como as gentis garoas tem seu lado negativo, sim – Aqua respondeu.
– Talvez não seja uma questão de compensação, então, mas sim de aceitação e convivência.
– Talvez – ela admitiu, pensativa.
Depois de algum tempo em silêncio, a Senhora sorriu.
– Diga, velha amiga, fui realmente eu quem a chamou ou você ouviu um eco num de meus sonhos?
– Eco? Não… Talvez tenha sido um reflexo.
No instante seguinte, não havia mais moça nenhuma na janela, apenas a chuva e o vento que começavam a fustigar as venezianas. A Senhora foi até ela para fechá-la, mas demorou-se alguns instantes a observar as águas da baía lá embaixo ameaçando engolir a cidade distante com suas ondas escuras.
– Você é uma amiga complicada, Aqua. Mas talvez seja exatamente por isso que nas maiores alegrias e nas piores tristezas derramamos algumas gotas de ti como uma homenagem à Existência. Ou seria à Dualidade? Às vezes não sei se são a mesma pessoa ou apenas gêmeas.
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