As horas seguem e a reunião na casa dos avós segue para
aquele momento que o assunto acaba estão dando risada de qualquer bobagem que
aparece na televisão. Cada um gargalha mais alto do que quem está do lado e a
antiga cozinha vibra com a animação.
Sentado meio de lado está o avô. Quieto num canto do sofá da sala. Já havia
desistido de tentar decifrar qualquer coisa que viesse daquela turba de vozes
fazia um tempo, então ficava apenas esperando tudo se acalmar novamente.
O avô gostava de sentar sempre naquele lugar. Havia uma
cômoda perto onde havia tudo que ele precisava, evitando o sofrido movimento de
se levantar. Sempre havia uma garrafa com água, seu lenço, o controle remoto do
rádio e uma caixa chaveada.
As risadas não acabavam nunca e o momento de contemplação
daquilo já se tornava longo demais. Queria que acabasse aquele encontro para
poder ligar sua vitrola e ouvir algum dos discos que foi acumulando ao longo
dos anos.
Isso pode soar meio amargo da parte dele, mas pode
acreditar, ele amava a família. Porém naquele ponto já estavam em planos
totalmente diferentes. O plano da luz onde seus descendentes teimavam em se
esconder dele era inalcançável. Os anos na sombra o cansaram e não havia muita
energia para tentar mais.
De um momento para o outro, Nicholas, seu neto mais novo,
atravessou o vão da porta, vindo da cozinha, acendeu a luz e foi em direção ao
avô. Pediu desculpas por estar longe por tanto tempo. Perguntou como estavam as coisas. Contou as
novidades da escola. Escondeu com a sua voz fina e frágil, de um garoto de seis
anos, toda aquela gargalhada pujante que sobrava na cozinha.
O alívio do avô era tamanho que ele precisou retribuir:
“Pega pro vô aqui no
bolso do meu colete uma pequena bolsa de pano”
O menino obedeceu, pegou a bolsinha de veludo marrom, com
uma pequena corda amarela, que o avô escondia no bolso direito daquele colete
cinza surrado que ele adorava usar sob o paletó. Dava leves tapinhas por fora
do bolso todas as vezes que saia, apenas para se certificar da presença do
pequeno volume.
Nicholas abriu atento o nó meio solto e tirou uma chave empoeirada
de dentro do pacotinho. Era uma chave bastante normal, sem enfeite, sem nada de
exuberante. O menino deu a chave na mão do avô, mas este pediu para que o neto
continuasse com ela. Virou para a cômoda e pegou a velha caixa chaveada.
“Fazem alguns anos que
abro, só toma cuidado que a chave dá uma emperrada no começo”
O menino se virou bem com a chave e com a caixa aberta não
entendeu muito bem o que encontrou logo de cara. Havia alguns relógios e um porta-retratos
virado para o fundo da caixa. Aqueles relógios eram estranhos. Sobras de uma
época que o menino ainda não era vivo. Digitais, com um pequeno botão em cada
lateral, um acionava o cronômetro, e o outro ligava uma fraca luz que não
adiantava muita coisa.
O avô estava acostumado a dar para seus netos relógios de
quando em quando e esse era um dos últimos. Pelo menos há uns quinze ou vinte
anos atrás, ele recebia de volta sorrisos dos pequenos netos. Todos adoravam o
presente. Mas Nicholas não havia entendido muito o propósito daquele negócio.
Pegou o smartphone do pai que estava no seu bolso e checou se a hora estava
certa.
“Esse troço não sabe
nem que estamos no horário de verão”, pensou o menino, meio confuso com a
hora de diferença.
O avô tomou o braço do menino e colocou o relógio com
carinho no seu braço. E subitamente ele entendeu o que havia acontecido quando
o avô deixou escapar:
“É acho que esse foi o último...”
O sorriso que o menino soltou foi escondido, mas o abraço demorado
que o acompanhou foi tudo que o avô precisava para saber que a resposta era a
esperada.
O menino ficou um tempo abraçado no avô e de repente veio
uma imagem na sua cabeça. O porta-retratos virado para baixo. Ele estava velho.
Parecia ter sobrevivido algumas décadas de umidade lá dentro daquela caixa. As
bordas levemente mofadas eram a prova disso. O menino pegou a caixa antes que o
avô a fechasse e guardasse a chave de volta no saquinho de veludo.
Virando o porta-retratos avistou um papel velho,
esbranquiçado, com alguns amassados espalhados por toda a suposta fotografia. O
avô percebendo que o menino estava com o objeto em mãos esperou para ver a reação que viria. Porem o menino
permaneceu em silêncio, sem entender nada. O relógio foi algo muito mais fácil
para a mente da criança desvendar. O papel desbotado não dizia nada.
“Eu era bem parecido
com seu pai, né?”, perguntou impaciente o avô.
O menino não sabia o que dizer. Simplesmente não sabia.
A velha fotografia que o avô guardava com um tesouro quase
que centenário não tinha mais nada a dizer. Os filhos e os netos mais velhos
nunca tiveram a curiosidade de tirá-lo do fundo da caixa chaveada, sempre
ficavam muito entretidos com seus relógios novos e legais. Como a vó já havia
partido há alguns bons anos não haveria mais ninguém para saber ou mesmo contar
como era a paisagem da rua de chão batido onde o pequeno Alvim jogava bola de
pano.
Era muita confusão para um menino de seis anos.
O avô pegou o porta-retratos com cuidado, fitou-o por um tempo, lembrando de tudo como era antes, acariciou o vidro
e guardou o seu precioso tesouro no fundo da caixa, virado para baixo. Guardou os outros
2 relógios em cima. Os três objetos ficariam ali guardados para sempre. O avô
jamais abriria a caixa novamente. E mesmo se daqui algumas décadas alguém
resolvesse abrir, o tesouro permaneceria perdido.
Para sempre
Nenhum comentário:
Postar um comentário