Existem alguns momentos em
nossas vidas nos quais parecemos parar no tempo e não naquele sentido bonito de
filmes românticos. Isso aconteceu comigo poucas
vezes. Uma delas, bastante recente, foi durante meu terceiro voo em dois dias.
Era um de seis horas, depois de um de dez horas, e entre os dois foram mais
cinco confortavelmente sentada nas cadeiras do aeroporto. Aquelas macias e
quentinhas que você sempre quis ter em casa.
Pois bem, foi no ultimo voo
que eu senti as horas quase rindo de mim. Elas passavam tão lentamente, que eu
sequer tinha noção de quanto tempo havia passado e, o mais importante, de
quanto tempo faltava. A paisagem já não era mais divertida, podíamos passar por
desertos, montanhas com neve, praias, florestas ou unicórnios voadores. Nada,
absolutamente nada, fazia dez minutos não parecerem horas. As pernas doíam e os
poucos minutos de sono traziam dores no pescoço de brinde. Queria levantar, mas
não estava na almejada cadeira do corredor e sim naquela da janela, que faz com
que todo mundo tenha que levantar para você poder sair. A minha frente uma pequena
televisão sugeria que eu adquirisse pacotes de filmes para a viagem. Me pareceu
tentador, mas prometi a mim mesma não gastar dinheiro com isso. Não foi fácil.
Já haviam passado pelo menos
quatro horas de voo quando vi que minha mãe havia começado a conversar com a
pessoa ao lado dela. Ela devia estar tão entediada quanto
eu. O alvo do dialogo era uma senhora com cabelos loiros quase brancos, olhos
claros e com seus sessenta anos ou mais, dona da almejada cadeira do corredor.
E foi dela que me vieram três surpresas durante aquele voo infinitamente longo
e cansativo.
A conversa começou lenta, com
palavras truncadas devido a diferença do idioma, mas logo se desenvolveu de
forma natural. E então veio a primeira surpresa, quando listou os pontos que
deveríamos visitar. Começou pelos turísticos, logicamente, e então passou para
lugares específicos de North Beach, bairro da cidade.
- Esse é um restaurante
italiano, não muito famoso. E este é um bar muito antigo, vocês realmente
deveriam ir lá. Tem blues aos domingos e é no mesmo dia que eu trabalho como
bartender.
Ela disse essa informação
muito naturalmente e eu pensei ter enroscado no meu inglês. Talvez porque ao
ver Amelia eu tenha criado uma historia na minha cabeça de uma senhora que
vivia pacificamente curtindo sua aposentaria em uma cidade americana, e ela ser
uma exímia preparadora de drinques nao se encaixava nesse contexto.
A segunda veio logo em
seguida, contando o porque ela trabalhava no bar aos domingos:
- Na verdade eu tenho um
pequeno teatro. - Ao ver minha cara de surpresa ela acrescentou: bem pequeno
mesmo. Não da dinheiro nenhum. Sobrevivo do trabalho do bar e das gorjetas. Sou
atriz, mas nunca fiz dinheiro com isso.
Pois bem, Amelia, alem de
preparar drinques habilmente, também tinha um teatro. Mais uma coisa que eu não
tinha acrescentado a minha história particular.
Amelia acabou sendo uma pessoa
muito interessante e me agraciou com mais uma surpresa, quando estava contando
sobre seu namorado e a cachorrinha que havia adotado, o piloto anunciou que
iríamos pousar em breve, precisávamos afivelar o cinto, voltar a poltrona no
lugar e todo o resto da parafernália.
Finalmente havíamos chegado.
Obrigada Amelia.
Amelia, claro, ganhou um novo
nome neste relato. Mas seu teatro e drinques existem de verdade e já fazem parte
do meu roteiro.
Super velhinha dos USA \o/
ResponderExcluirEu definitivamente gostaria de conhecer esse teatro e a dona Amelia. :)
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