Marcos vagava pelos corredores,
tentando disputar o pouco espaço com caixas, pessoas e as próprias barracas,
montadas uma em cima da outra. Era véspera de natal e todos sorriam. Menos ele.
As barraquinhas exibiam produtos
decorados, um mais bonito que o outro. Em uma delas ele viu marionetes. Sophia
gostava de marionetes. Mais a frente um par de bonecas lhe chamou a atenção.
Eram de porcelana, delicadas como nunca havia visto, com vestidinhos bordados a
mão. Mas o que mais havia gostado nelas eram os cabelos, com cachos fartos,
iguais o de Sophia. Sempre quisera dar a ela uma daquelas. Deu mais alguns
passos e parou em frente a uma barraquinha discreta, que exibia pães
caramelizados com todo tipo de recheio, doces e salgados.
Todo natal Marcos procurava por algo, e
sempre voltava para casa com as mãos vazias. Não tinha dinheiro. As tão
desejadas bonecas lhe custavam mais de três salários. As marionetes pelo menos
dois. E os pães o dinheiro que usava para colocar comida na mesa durante a
semana toda, se não o mês.
Já sem esperança e afugentado pelo frio
que mal deixava suas mãos permanecerem fora dos bolsos, Marcos seguiu em
direção a sua casa. Não conseguira achar algo de novo. A frustração pesava
dentro dele como um tijolo.
Ao chegar no final da praça uma imagem
o fez parar. Era uma menininha sentada no meio-fio com uma grande touca
vermelha. Em frente a ela tinha uma caixa virada com uma toalha. Chegando mais
perto ele pode ver que em cima da toalha tinham pequenos frascos com rolha e um
cordão, ordenados milimetricamente um ao lado do outro. Todos eles possuíam
algo colorido dentro, uma espécie de fumaça brilhante, quase transparente, cada
um de uma cor. Ele nunca havia visto algo tão bonito.
- Gostou de algum? - A voz aguda da
menininha o tirou do transe.
- Na verdade gostei de todos. O que
são? - Ele falou, segurando um vidro com uma luz vermelha e pontinhos dourados
dentro.
- Sonhos. - Ela respondeu simplesmente.
Marcos pensou não ter entendido direito
mas quando ele repetiu a pergunta e ela confirmou, ele apenas continuou
encarando o delicado objeto entre seus dedos.
- Certo, mas por que está sozinha aqui?
Ninguém quer comprar?
- Sonhos são difíceis de vender. Todo
mundo quer sonhar, mas para aquilo que a pessoa deseja tão arduamente se tornar
realidade, ela terá que batalhar. As pessoas não querem algo incerto. Elas querem algo pronto, rápido. O sonho te estimula,
perturba, inquieta. Ele não permite ser esquecido até ser realizado. Mas as
vezes acontece dele ser posto de lado tantas vezes que vai se apagando. E não
existe coisa mais triste do que sonhos adormecidos. As pessoas precisam
acordar seus sonhos. Garanto que se eu vendesse sucesso, riqueza e felicidade,
eu não precisaria estar aqui até essa hora.
Marcos achou graça do aborrecimento da
menina. Não acreditava em sonhos há muito tempo, mas simpatizou tanto com ela
que retirou as poucas moedas que tinha no bolso.
- E quanto custa?
- Esses não custam nada. Eu já estava
indo embora mesmo.
- Você tem certeza? Mas você não vendeu
nenhum, como vai passar o natal?
- Eu já ganhei meu maior presente.
Sem entender, Marcos sorriu. Pegou um
frasquinho e colocou em volta do pescoço. Abriria quando chegasse em casa.
Perdera a conta de quanto tempo não ganhava um presente. Andou calmamente pelas
ruas, imaginando qual tipo de sonho poderia ter ali dentro. Esquecera de
perguntar isso a ela. Mas era um presente certo? Cavalo dado não se olha os
dentes.
Naquela noite Marcos havia acordado algo há muito tempo esquecido dentro dele. Já a menininha ninguém nunca mais a viu. Nem mesmo naquele dia. A vendedora de sonhos de touca vermelha e fartos cachos negros.
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