Joana tinha aquela mania de
amores platônicos. Sempre andava às voltas com uma paixão shakespeariana,
sofria, chorava, escrevia poemas. Normalmente, durava uns seis meses cada uma
delas e sempre ela tinha certeza que o atual era o homem de sua vida. No auge dos dezessete anos, aquilo fazia com
que se sentisse viva, parte do mundo, sabe?
Naquele outono, algo diferente
aconteceu.
Enquanto voltava da escola,
por volta do meio-dia, passou pelo Abraham, provavelmente sua parte favorita de
todo o Canadá que ela conhecia. A multiplicidade de cores que se podia observar
na província nesta época do ano era algo notável, era possível ver o manto
vermelho que forrava o chão de grama ainda verde, que parecia lutar para não
sumir no pré-inverno. Desde que tinha se mudado para lá com a mãe, o outono
exercia um fascínio sobre ela. Aquelas folhas vermelho-alaranjadas caindo das
árvores a inspiravam e enchiam as ruas; sempre tivera simpatia pelo formato
delas, que, na sua cabeça, lembravam uma mão aberta, livre, sentindo o vento.
Sentou-se no banco de madeira e ficou observando as crianças brincarem por
algum tempo, até que pousou seus olhos em uma pessoa sentada do outro lado do
parque. Estava sentado no chão, com as costas apoiadas no assento do banco de
madeira. Parecia estar fazendo anotações, com os cabelos longos caídos na
frente do rosto. Olhava para frente, depois para baixo de novo, e a dança da
caneta (ou lápis, ela não enxergava direito) começava.
Fitou-o por um tempo impreciso
e resolveu se aproximar, assim, de leve, só para saciar a bendita curiosidade
que já lhe fervia as têmporas. Sentou no banco mais próximo e menos suspeito
que encontrou. O rapaz era jovem, mais velho que ela, aparentemente, mas jovem.
A barba rala lhe dava um aspecto sóbrio, mas os olhos tinham mais fúria do que
as crianças no banco de areia. Parecia observar cada detalhe e se não fosse a
distância e a cobertura da árvore rubra, o tomariam por algum maníaco estudando
o ataque à próxima vítima. Joana arriscou-se a esticar o pescoço e,
repentinamente, tudo clareou em sua mente: ele estava desenhando. Estava
capturando aqueles momentos de felicidade infantil, em meio a areia, brinquedos
e folhas cobrindo o chão. E não era qualquer desenho, não. Ele era bom mesmo.
Abriu um livro para disfarçar
a sua espreita, ora olhava para as páginas, ora para ele, até que os olhares se
cruzaram e ele sorriu. Joana sentiu que seu rosto transfigurara na folha da
bandeira canadense naquele momento, tão vermelha que estava e tão grande era a
vontade de se jogar no chão, que vergonha! Mesmo assim, sorriu de volta, achou
que seria polido e apropriado, de frio já bastava o clima. Fechou o livro,
levantou-se e foi saindo à francesa –
que bom que estavam em Quebec –,
tentando permanecer invisível; porém, não ficou imune a um aceno tímido dele.
Já em casa, Joana se jogou na
cama e ficou olhando o quarto de cabeça para baixo. Gostava dessa perspectiva
de que seu mundo havia sido chacoalhado a ponto de virar de ponta-cabeça. O
moço era tão, tão bonito... os cachos caindo na cara, os olhos vívidos, verdes
como a esperança da primavera. Ah não! Estava fazendo novamente, estava
ocupando o coração com um desconhecido que nem sequer sabia o nome. Resolveu é
ir estudar e enxotar esse absurdo da cabeça.
Quando caiu em si, estava
passando todos os dias no parque, no mesmo banco e com o mesmo livro. E ele
também ficava na mesma árvore, mudava apenas o foco dos olhos, o que deixava
Joana fervilhando mais ainda: o que ele estaria eternizando hoje? Seriam
árvores? Os cães com os seus donos, o céu azul com sol a pino...será que um dia
seria ela...será que um dia ele notaria ela de modo menos educado e mais
artístico. Achava tão lindas as histórias com musas inspiradoras, ser capaz de
causar um turbilhão tão grande no artista a ponto de ele não conseguir deixar
de lançar tudo em uma obra, como se fosse a última de sua vida. Ela devia é
parar de ver filmes água-com-açúcar, isso sim. Percebeu que ele olhava bastante
o desenho pronto (às vezes só por finalizar) e sentiu que queria aquilo para
ela, queria um olhar de admiração e satisfação por ter inspirado alguém. Mas
por que um desenhista se interessaria por uma garota comum, carregando a mochila
da escola? Ela não tinha nada de interessante, no máximo os cabelos azuis, em
vários tons, que contrastavam com sua pele branca e acabavam por realçar os
olhos azuis-claros, chegando a se misturar com eles. Era magrinha e com seios
pequenos. Quase sempre andava de jeans e camiseta, ou alguma blusinha que fosse
fofa. Adorava flores e gatinhos, bem coisa de menina moça.
Quase perdeu a hora do almoço
e saiu correndo, nem lembrou de olhar pra trás. Quando chegou em casa, a mãe já
estava impaciente com a mesa posta.
– Ficou
de castigo na escola, Joana?
– Não,
é que... eu me distraí com um livro no parque, só isso.
–
Sei... olha lá, menina. Acabamos de chegar no país, não vá aprontar!
– Claro
que não, mãe!
E subiu pro quarto de novo,
para o seu momento upside down. Não
parava de pensar nele e já tinha construído o primeiro diálogo com ele na sua
cabeça, todo o roteiro. O problema é que, certamente, ele não o seguiria. Ia
falar com ele por quê? “Oi, você é lindo, me desenha?”. Ridículo. Era melhor
voltar para o francês, imagina se ele não falasse inglês, tragédia, odiava o
seu sotaque quando tentava falar francês, todo errado e feio.
E assim passaram algumas
semanas, e sempre Joana desejava que sábados e domingos fossem curtos, pois ele
não estava lá nos finais de semana. Ela já lia o segundo livro, tinha até
escolhido um maior, para justificar o tempo que passava no banco, cada vez
maior. Até que um dia, a folha do desenho dele voou com uma rajada de vento.
Voou direto pra ela, que segurou aquele pedaço de papel como se sua vida
dependesse disso. Parecia um esboço, não dava para entender direito, parecia
uma rosa, uma flor, enfim. Sentiu a espinha arrepiar-se quando ele caminhou em
sua direção e respirou devagarinho, não podia suar na frente dele e muito menos
deixar que ele percebesse seu nervosismo. Todo o planejamento foi por água
abaixo quando ele sentou ao seu lado, sorrindo e pegando o papel:
–
Menina fujona essa folha, hein? Desculpe-me atrapalhar sua leitura.
– Imagina,
acontece...
–
Julian! Prazer!
–
Joana... – pegou, meio hesitante, na mão dele.
– Olha
só, até que tem poesia – e saiu, voltando a recostar-se na árvore.
Joana voltou pra casa. Já não
andava, flutuava.
Tentou estudar a tarde toda,
mas não conseguia. O perfume amadeirado dele e a voz, meio fina, bem verdade,
mas doce. Como pensar nos verbos, negações, vocabulário, se sua cabeça só
cantava Ne me quite pas.
Depois de algumas horas de
música nos ouvidos e pensamentos voando, concluiu que só poderia ser notada de
verdade se fosse um desenho dele. Se eu
fosse um desenho, teria aqueles olhos e sorriso todos os dias...todos os dias…todos
os dias... Adormeceu com a ideia fixa.
Acordou se sentindo estranha,
leve demais. Não conseguia mexer nenhuma parte do corpo. Já tinha ouvido falar
sobre a cabeça que acorda antes do corpo e resolveu esperar. Primeiro seu
tronco começou a formigar, formigava, parava…depois os braços. Quando sentiu os
braços, tentou se levantar, olhou em volta e o quarto estava todo branco,
inclusive a cama. Estaria sonhando? Ou com algum problema de claridade... assim
que as pernas formigaram, viu que estava sentada, mesmo não se lembrando de ter
feito isso. No seu colo estava o livro que lia, mas ele também não tinha cor.
Desesperou-se. Estava sentada, não conseguia mover um músculo por vontade
própria. É um sonho, é um sonho, é um
sonho...
Cruzou os olhos com os dele.
Como isso era possível? Tentou falar, mas sua boca não se abriu, o silêncio era
aterrador. Correu os olhos por si mesma, não tinha cor. Conseguia ver o cinza
que delimitava seu corpo e nada mais. Sentiu um pingo úmido na cabeça,
acompanhado de um sorriso que quase dizia: “Perfeita, está perfeita”. Viu
diante dos olhos seu cabelo, no azul mais vívido que poderia ter visto. A tinta
escorria de seu cabelo aquarela.
Olhou para ele, um misto de
ternura e desespero. Compreendeu, não sabia como aquilo acontecera, mas
compreendeu.
– Agora
você é eterna, moça Joana. – contemplou por horas a sua obra de arte. Estava
ansioso para mostrar a ela, entregar aquele presente pra menina bonita. Quem
sabe sentir o seu gosto, tirar-lhe a torrente de cabelos azuis da frente dos
olhos e mergulhar neles...
Nunca mais Julian encontrou
Joana no parque, e consolava-se com a folha de papel em seu caderno de esboços.
Era linda, seu melhor desenho, mas parecia triste e ele nunca conseguira
consertar aqueles olhos, que o acusavam de um crime que ele não sabia qual era.
Mas não conseguia deixar de sorrir quando fitava a obra.
Se
eu fosse um desenho, teria aqueles olhos e sorriso todos os dias...todos os
dias…todos os dias...
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