Caminhava sem rumo aparente, vagueando por entre árvores muito verdes e folhosas. O calor úmido grudava em seus braços e pernas e o cheiro de musgo irritava o nariz. Não sabia como chegara ali, assim como as vezes anteriores, mas conhecia bem o lugar onde fora parar.
Seguiu pelo caminho de chão batido, aberto por ele mesmo anos antes, até chegar ao limite da vasta floresta. E lá estava ela: a pequena cerca de madeira.
Com um misto de ansiedade e culpa deu passos afobados tentando alcança-la, olhando para os lados, como uma criança com medo de ser pega em flagrante em meio a uma travessura.
- Eu não faria isto se fosse você. - O aviso veio rápido e certeiro, fazendo com que seus pés congelassem no lugar.
O dono da voz rouca e baixa era um rapaz encostado na parede. Seus olhos estavam cobertos pela aba de um chapéu preto fosco e seu sorriso era contido. Todo seu corpo estava imóvel, exceto pelo seu dedo polegar, que subia e descia ritmicamente, acompanhado do tilintar e do brilho dourado da moeda lançada por ele.
Fitou-o por um longo tempo, sem saber se começava a se explicar ou simplesmente voltava por onde veio. Sem chegar a conclusão alguma, apenas ficou em silêncio.
- Eu sabia que você iria voltar.
- Você vai me impedir? - Os olhos verdes fitavam apreensivos o estranho guardião a sua frente. Ele tinha a sua altura e, pelo que conseguia ver apesar do escuro, seu peso não devia ser muito diferente também. E mesmo tendo quase certeza destas duas coisas algo não o deixava partir para cima do desconhecido para lutar por seu direito de ir e vir. Ou simplesmente sair correndo e pular a dita da cerca.
- Você precisa mesmo passar?
Por um momento hesitou. Precisava mesmo? Por que estava aqui? Precisava estar neste lugar?
- Sim. - Respondeu carregando toda a certeza que não tinha naquelas três letras.
Um sorriso mais aberto, carregando algo que ele não conseguia identificar surgiu nos lábios do estranho. Decepção? Pena?
- Pois bem. Então eu proponho um jogo. Você escolhe o lado da moeda e eu jogo. Pula a cerca quem acertar.
Aquele jogo lhe pareceu absurdo mas, ao mesmo tempo, veio carregado de uma certeza. A vitória.
- Cara. - Respondeu com convicção.
O entranho apenas assentiu e jogou a moeda sem delongas, como se também já soubesse o resultado. Seus dedos a pegaram ainda no ar e, sem conferir, deu um passo ao lado, em sinal de permissão.
Satisfeito consigo mesmo ele inclinou a cabeça em agradecimento e seguiu em frente. A cerca de arame farpado cortou sua mão e braços, mas ele continuou mesmo assim. A medida em que ia avançando suas indagações não faziam mais sentido. Não importava saber se devia estar ali. Se voltar não teria sido melhor. Aquele lugar lhe era estranhamente familiar e acolhedor.
Ao longe olhos verdes brilhantes observavam o garoto por debaixo da aba do chapéu preto fosco.
- Não precisa agradecer. Não é como se eu pudesse te impedir. Nos impedir. - Pensativo, colocou a mão no bolso e fitou o vazio. Lá seus dedos encontraram a moeda limpa de ambos os lados. Sem cara nem coroa.
Com um sorriso triste ele observou o garoto seguindo seu caminho escuridão adentro. Mergulhando e afundando cada vez mais no mar de lembranças que deveria esquecer. Sufocando no passado que não deveria ser lembrado. Remoendo uma a uma, as memórias que prometera deixar para trás.
- Só mais esta vez. - Sussurrou, como se pedisse desculpas para o estranho familiar do outro lado da cerca.
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