Ela fechava
a porta de casa uma última vez.
Na carreta,
praticamente tudo que ela possuía estava empilhado, amarrado ou empacotado em
uma apertada de papelão.
Praticamente.
Em suas
mãos o último item que restava em casa. O qual ela fazia questão de deixar por
último, enquanto decidia se levaria ou não.
Já havia
conferido todas as janelas. Estavam todas fechadas. Tal como a única cortina
que havia. Nada haveria de escapar. Nem mesmo memórias. Ela preferia deixar
muitas delas trancadas naquele apartamento para serem pisoteadas pelo entusiasmo
fresco dos que viriam a morar lá.
Era um bom
apartamento. Durante a tarde a luz, cada vez mais baixa, entrava abundante, até
ser bloqueada pelas árvores da rua. Porém a abrupta solidão que assolou aquele
espaço foi avassaladora. O ambiente vazio ecoava até os ruidosos pensamentos
indesejados. A mobília se fora, as pessoas
se foram. Qualquer som emitido rebateria em toda a dureza das superfícies até
chegar e morrer em sua pele, suas roupas, seu pequeno colchão.
Veio-me à
mente, assistindo a cena de da janela da sala, no prédio vizinho: “Deve ser
fácil ir embora, quando há pouco, ou quase nada, a ser deixado para trás”.
Cria, inocentemente, que tudo que havia em volta, por mais que amasse, se
tornaria uma raiz. Como se dos meus pés começassem a brotar vinhas e cipós,
emaranhando em volta de tudo e todos. O mesmo aconteceria com todos os que
viviam comigo. Seria um nó que prenderia, mesmo que com certo carinho, no
estado inerte. Tanta reflexão me iludia da real idiotice deste pensamento. Ir
embora é sempre algo dramático.
Ouvi a
porta atingir o batente. Como dentro do apartamento, no final de noite os sons
viajavam livres pelos corredores formados pelos prédios, rebatendo na dureza
inerente à cidade. Para procurar as chaves nos bolsos, ela deixou o último item
no piso de cimento do quintal.
O pequeno
ramo de alfazema crescia forte do pequeno vaso de plástico. Não deixaria para
trás seu pequeno tesouro. Era um bom ouvinte o ramo de alfazema. Para ele os
segredos eram contados, as canções eram cantadas. Ela olhava a planta no chão
duro e tinha certeza que algo viria para mudar para sempre a sua vida.
Ela achou
as chaves no bolso esquerdo da jaqueta. Estava frio naquela noite e o sereno
castigava o rosto. O metal escorregava fechadura adentro e o ruído dos pequenos
mecanismos foi o grande ultimato da noite.
Ela fechava
a porta de casa uma última vez.
Nenhum comentário:
Postar um comentário