Era o sexto
mês consecutivo em que repetia o mesmo ritual. Pegava seu velho laptop, aquele
que não consegue processar mais que uma folha do Word aberta, sentava-se e
encarava aquele tom de branco acusador, como se a folha soubesse que, mais uma
vez, ela não conseguiria escrever nada e mergulharia em qualquer outra
atividade, para ajudar a engolir a frustração. Entretenimento é como um uísque
moderno, meia hora de futilidades e você acaba se sentindo melhor, deixando os problemas para lá ainda mais
com a oferta gigantesca em internet, televisão e afins. Ria sozinha ao pensar que uma das possíveis causas de seu problema ajudava a esquecê-lo.
Não conseguia
descobrir a raiz da trava. Culpara o deficit de atenção, a preguiça, a falta de
tempo e de talento, mas as desculpas pareciam esgotar-se ou não mais convencer
a sua cabeça como antes. Sentia-se uma cobaia de si mesma, nas mãos do
cientista ávido por mais uma descoberta e que nunca se dava por satisfeito.
Inspiração? Ah, isso era uma grande bobagem, duvidava que escritores de talento
esperassem as histórias descerem da Arcádia ou que as psicografassem da grande
musa. Será que a sua vontade de ser boa fazia com que ela não fosse nada? Será
que não teria nada a dizer?
Com o ano já
perto do fim, decidiu mudar o modus operandi.
Com o caderno
de anotações em mãos, caneta em punho, procurou lugar na pracinha. Já noite,
buscava um lugar solitário, longe da curiosidade mundana e das distrações da
sociedade. Sentou-se no pequeno banquinho embaixo de uma árvore. Trazia consigo
um toco de vela, exatamente do tamanho do tempo que precisava para cunhar
aquelas palavras no papel, bem assim, à moda antiga. Riscou o fósforo e um
clarão tomou conta do seu castelo, montado naquele mísero espaço de concreto.
Fitou o toco por alguns minutos, vendo o fogo agitar-se a cada pequena brisa
que o beijava. A luz tremeluzia no papel, como se a convidasse a preenchê-lo,
como se estivesse curiosa e quisesse ler aqueles rascunhos.
Buscou o sentido da vida em cada lampejo, como se só aquele tímido pedaço de vela pudesse lhe contar as verdades do universo. Conversou com cada gota de cera que escorria, jurando que elas formariam respostas no chão...sentiu seu coração cheio do cheiro de fogo, cheiro de vida, cheiro de vontade.
Escreveu,
escreveu como nunca tinha feito no conforto de casa. As palavras pulavam da
caneta para o caderno, ávidas, libertas, precisas. Uma página não lhe foi
suficiente, seu coração precisava de mais linhas, afinal, havia algo a dizer. As
mãos doíam pela falta do hábito, mas estava satisfeita. Livrara-se dos grilhões
do cotidiano e sempre tivera a chave ali, na beira da cama. Tudo que precisava
era da noite, da caneta... e de um toco de vela. Não sairia sem ele nunca
mais. Toco de inspiração.
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