Todos os meninos sentavam na beira da rua e estranhos lhes
davam de comer. Tamanha generosidade os cegava da realidade de quão cruel o
mundo haveria de ser. Havia ainda um quinhão de inocência que ainda tinha muito
pra durar, ou talvez de uma hora para outra iriam perceber que estavam
sozinhos. E que, de uma hora para outra, a ternura do rosto infantil iria
acabar e mais nenhum estranho iria parar.
Durante a noite os corpos juntos tentavam se esquentar, enquanto
a chuva de pedras teimava em castigar o pequeno casebre improvisado que usavam
como abrigo. Olhar o rosto daquele que estava ao lado era o único alento
possível para tentar aceitar a realidade trágica que a cena retratava. Noite
após noite os pequenos se deitavam e torciam por um pouco menos de frio e
chuva. Um pouco menos de lama e gelo.
Felizmente os estranhos continuavam a parar, e olhavam os
meninos brincando pelo gramado. Corriam rápido para ver que era e com um
sorriso os recebiam. O pouco que ganhavam era tudo que precisavam. O pouco que
ganhavam era realmente muito pouco, mas eles não sabiam.
Noite após noite, o espaço do casebre era maior. Os meninos
iam embora, pouco a pouco. E quem sobrava estava mais preocupado em se aquecer
a noite, correr e se divertir de dia. Os estranhos não paravam de estender a
mão.
Até que certa noite só sobrou um único menino. Não conseguia
se aquecer. Não havia um companheiro para parar o vento. Ainda não havia
chegado a sua vez. E, afinal, ele não sabia para onde todos haviam ido. Aquele
casebre à beira da rua era frio e úmido. Triste, agora que estava vazio. Quando
um dia chegasse a sua vez, tentou imaginar que seria estranho para os estranhos
passarem e não haver mais meninos brincando naquele lugar. Para quem deixariam aquele
pouco que deixavam.
O casebre ficaria ali. Abandonado. Até que, assim como os
meninos, sumiriam o telhado, as paredes de madeira. Os panos e trapos. Não sobraria nada. Tal
como estava o lugar antes de aparecerem os meninos.
Os estranhos iriam continuar passando. Porém, sem a presença
viva dos meninos, aquele lugar voltaria a ser um pedaço de grama qualquer.
Ninguém mais iria parar.
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