Os dois
irmãos eram chegados como nunca desde que o primeiro havia ido embora de casa. Os encontros menos frequentes foram o preço que o tempo cobrou pela maturidade de, hoje homens
feitos, deixarem pra trás aquele monte de picuinha, coisa boba, da infância e adolescência. Santa
ironia. Mas os dois jamais foram tão diferentes.
A mesa de
jantar da família sempre reservava uma conversa à italiana. E a conversa entre
os dois era direta. Havia medo do que viria, porém de tanta os caminhos eram
claros para o mais jovem. Precisavam apenas ser traçados.
“Porque o
mundo e as coisas são assim”,
“Porque as portas estão aí, abertas”,
“Porque é
tudo bem simples”, dizia o caçula antes de continuar com coisas o que o outro
jamais entenderia.
Deve ser maravilhoso
olhar o mundo através de olhos de peixe pensou o outro.
E saber colocar todas essas distorções em um mapa fiel, mas tão fiel, que dava para apostar tudo em cima de um plano feito a prova de falhas.
E saber colocar todas essas distorções em um mapa fiel, mas tão fiel, que dava para apostar tudo em cima de um plano feito a prova de falhas.
Mas tudo
isso era grego para ele. Seus olhos pareciam normais. Até mais fechados, se
for.
No fim, os antolhos serviam bem, como aquelas roupas cujo caimento é tão preciso, e o tecido é tão leve que nem sentimos no corpo.
No fim, os antolhos serviam bem, como aquelas roupas cujo caimento é tão preciso, e o tecido é tão leve que nem sentimos no corpo.
A arte de
ser um artesão e querer ser artista é algo deliciosamente irônico. O vício de
olhar para frente e temer que tudo em volta é apenas distração, fruto de um certo transtorno do déficit de atenção, mas se coçar
para não olhar envolta.
“Afinal o cachorro é apenas um filhotinho”.
“Afinal o dia está lindo para ficar aqui dentro”.
Que tortura.
O vício de querer trabalhar apenas com aquilo que está em mãos. É o vício de gostar de olhar pra dentro. E ser feliz diante da mesa de trabalho. Diante do papel em branco. Com o instrumento no colo. De fazer grandes obras através do conjunto de pequenas.
“Afinal o cachorro é apenas um filhotinho”.
“Afinal o dia está lindo para ficar aqui dentro”.
Que tortura.
O vício de querer trabalhar apenas com aquilo que está em mãos. É o vício de gostar de olhar pra dentro. E ser feliz diante da mesa de trabalho. Diante do papel em branco. Com o instrumento no colo. De fazer grandes obras através do conjunto de pequenas.
O vício do ofício o segura no chão enquanto torce para o irmão voar.
Afinal parece que estar distantes é o preço que se paga pela maturidade.
Afinal parece que estar distantes é o preço que se paga pela maturidade.
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