A tarde não
passava em uma das ultimas semanas do verão. Mas o outono psicológico já havia
ficado para trás há tempos. Agora era hora de suportar um pouco mais o frio que
não teima em passar. Era um frio úmido.
Aquele quarto jamais voltou a
ser quente novamente. As manhãs haviam sido problemáticas. Ao acordar agitada,
a água ia embora. Mas o cheiro do mofo ficava no ar. Por trás do velho papel de
parede havia de ter um pântano de onde saia toda aquela umidade.
A mente não descansara por dias
já. E, além do corpo, as ideias já davam sinais da estafa.
- Coisa estúpida. – Dizia pra si
mesma. Era bem de seu feitio este tipo de julgamento, com termos fortes.
"estúpido”; “lixo”; “podre”. Eram termos muito comuns no seu vocabulário.
Já havia se acostumado com tudo
isso. Em todas as noites, a agua vinha, causava um alvoroço. Cama subindo,
flutuando num mar turbulento. Água vindo dos buracos de pregos. Os gatos
ilhados na mobília flutuante. Os pesadelos noturnos eram a parte fácil.
Mas os dias eram torturantes. Os
pequenos incômodos plantados pela sua mente estavam insuportáveis. Durante o
dia, esperava a noite vir para molhar tudo, para ver se daria um pouco de
explicação. Era muito difícil ler as sutilezas, preferia guardar as perguntas
para si e esperar que a gritaria noturna fosse mais fácil de ouvir.
Mas não surtia efeito. As respostas
não vinham. E uma mísera gota, escapada do sonho, já era capaz de preencher
tudo com sua presença. Cada fresta. Cada vão. Cada espaço em branco entre as
letras. O olhar do seu filho refletia o pesadelo. Pequenininho. Bem no meio das
pupilas. Mas que culpa ele tinha afinal. Tão pequeno, jamais poderia entender
tanto sofrimento. Um dia ele vai
aprender que a vida não é tão fácil assim.
- Primeiro você tem que sustentar sua casa. Sozinho. Depois você tem que ser
feliz. Arranjar alguém. Casar. Seguir a vida. Depois vêm as frustações. Por alguns
momentos algumas destas coisas ficam incompletas. E com isso vêm os pesadelos.
E você tem que lutar com estes pesadelos enquanto dorme. Depois estes pesadelos
te perseguem de dia. É uma crueldade o que a vida faz. E que culpa temos? As
vezes é melhor ser duro. E tomar o caminho doloroso.
A explicação não significou nada para o
recém-nascido deitado no berço. E com a lembrança fugaz da face alheira do
bebê, de repente o relógio vira o ponteiro. 17:56.
Hora de voltar pra casa. Já deu por hoje.
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