A terra úmida se deixava afundar conforme os passos pesavam sobre ela. O barulho da água correndo, dos pássaros e o vento morno faziam aquele lugar parecer quase comum.
Encarou o reflexo por alguns instantes sem realmente entender o que via. No lugar de seu rosto envelhecido e da barba rala via pequenos fragmentos reluzentes, encaixados uns nos outros como um retalho de cacos de vidro. Se aproximou mais da imagem tremida e a fitou por longos minutos e então tocou um grande pedaço vermelho que devia estar, até onde lembrava, no lugar de sua cabeça. Nele, pôde ver o dia que seu pai saíra de casa.
Continuou tocando, uma a uma, as peças coloridas. A amarela possuía rostos de amigos que foram importantes e os quais lembrava com carinho. A azul, logo abaixo dela, lembrava uma desavença do passado que o levou a largar o emprego e começar uma nova fase de sua vida. A verde carregava seus animais de estimação e a cinza suas decisões. Reviu seu casamento, seu divórcio e o nascimento do seu filho.
Como um trailer, aquele filme estranhamente familiar mostrava apenas as partes importantes de sua vida. Perto de seu coração, um caco grande e preto trazia a dor da perda e a frustração. Todas as dores que o fizeram, de alguma forma, se tornar quem ele era. Tudo que estava ali fazia parte dele, como um grande quebra-cabeça de memórias e experiências. Nada fora perdido, todos que passaram por sua vida deixaram um pedaço e levaram outro, rasgando e costurando seu ser, moldando sua existência.
"Mas ele era essa pessoa mesmo? Ele havia se tornado uma pessoa melhor? E se tivesse feito outras decisões? Como estaria agora?”
- É assustador não?
Marcos olhou ao redor e percebeu que não estava mais sozinho: um jovem de cabelos pretos havia se sentado na beira do rio. Ao seu lado, um barquinho de madeira flutuava calmamente, acompanhando o movimento da água. Com um cigarro na mão, o recém-chegado dava pequenos tragos enquanto seus olhos fitavam algo muito além do imenso rio a sua frente.
- O que é assustador? - Marcos perguntou.
- Este monte de perguntas que surgem quando encaramos a nós mesmos. Quando percebemos o que nós nos tornamos.
O homem encarou novamente seu reflexo envelhecido e o que o peso dos anos havia feito a ele. Seus olhos vagaram até o ponto preto próximo ao coração.
- E quando a gente tem as respostas para este monte de perguntas?
O jovem deu um longo trago e um meio sorriso apareceu no canto de sua boca.
- Nunca.
Estupefato com a resposta sem rodeiros ele se virou e perguntou em um tom alterado:
- E o que você espera que eu faça então?
A outra resposta veio tão certeira quanto a anterior, mas esta não deixou espaço para mais nenhuma pergunta.
- Quando a hora de embarcar chegar, tenha certeza de ter encaixado todas as suas peças, de ter montado seu quebra-cabeça da melhor forma possível.
Falando isto ele fitou o barco que ainda estava ao seu lado e completou:
- E de trazer uma moeda também, claro.
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