A noite
quente impossibilitava qualquer sono contínuo e ela deitava, sem cobertas em,
uma cama vazia. Nada mais conveniente, pelo menos para a mente egoísta que
minava toda a energia de sua dona a fim de achar respostas noite adentro. O
resultado? Várias noites sem dormir e uma frustração imensa pela vã procura.
Em alguma
hora perdida pela madrugada um frescor estranho apareceu no quarto. Os lençóis
estavam úmidos e frios. A sensação atípica forçou os olhos, antes movendo-se
depressa por baixo das pálpebras como se procurassem algo, a se abrirem em um
susto. O papel de parede se descolava por sobre sua cabeça, água e limo
brotavam das paredes e das frestas do piso. A umidade subia pelos pés dos
móveis e apodrecia a madeira. A pressão da água expulsava os pregos de seus
buracos, e os quadros formavam pequenas ilhas no imenso quarto.
No momento
em que a cama se desprendeu do chão e passou a flutuar livremente, não havia
mais um segundo em que a sua mente se preocupava em achar respostas, havia
apenas medo.
Espremida contra a cabeceira, ficou de
olhos fechados esperando um pouco de luz passar pelas cortinas encharcadas e
esverdeadas. Sentia que o dia traria a normalidade de volta à sua vida.
O quarto estava seco. As paredes não
apresentavam sinais de mofo e o bolor havia sumido. Não vertia mais água de
qualquer fresta ou buraco na parede. Os quadros estavam de volta em seu lugar.
Tomou café, se arrumou e saiu para o
trabalho.
O caminho passava lentamente por ela e o
tempo não passava enquanto ela tentava esquecer a noite desastrosa. Concentrava-se
em caminhar na irregular calçada de pedra, em direção ao centro. Era fácil se
desequilibrar com os saltos finos que vestira (e se arrependera – de fato, se
arrepende dia após dia). Olhava fixamente pelos blocos. A concentração forçada
consumia sua energia e quando cedeu, junto com ela foi-se a pedra mal colocada
na calçada.
O piso cedeu e afundou e a água que estava concentrada sob ele encharcou a meia do pé esquerdo. Isso seria um incômodo constante durante o dia. A umidade deixou seu pé gelado, subia pelos ossos da perna, irradiava pela coluna, dando pontadas. Com estas pontadas, vinham as pitadas de toda aquela miscelânea de sensações noturnas.
O piso cedeu e afundou e a água que estava concentrada sob ele encharcou a meia do pé esquerdo. Isso seria um incômodo constante durante o dia. A umidade deixou seu pé gelado, subia pelos ossos da perna, irradiava pela coluna, dando pontadas. Com estas pontadas, vinham as pitadas de toda aquela miscelânea de sensações noturnas.
O homem lavando a calçada, o bebedouro que pingava no canto do escritório, as goteiras do telhado. Tudo servia de gatilhos para as pontadas de frio.
O dia passou devagar.
...
Os sonhos sonhados acordados eram mais sutis, mas igualmente torturantes.
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