Os quatro amigos formavam uma das mesas mais barulhentas do
bar, como de costume. Contavam aos risos as histórias da semana e se divertiam
um com a peripécia do outro. Um deles, porém, guardava seu silêncio, seu olhar
errando pelo ambiente e hora ou outra fitando um de seus companheiros sem ouvir
ao certo o que eles diziam.
A mesa ficava ao ar livre, logo à saída do bar, e contava
com a bela vista das luzes amareladas do calçadão e do céu estrelado, parcialmente
ofuscado pela iluminação artificial. No clima quente da época, a suave brisa
abençoava aquela região e tornava essas mesas as mais disputadas de toda a rua.
Não demorou para que um pequeno besouro caísse sobre a mesa
com o estalo típico dessas criaturas que, afobadas, se lançam como torpedos em
direção aos ambientes de iluminação artificial, encontrando por vezes obstáculos
colossais como janelas, basculantes ou mesas de bar para lhes interromper a
trajetória. Ninguém notou o inseto à exceção do rapaz, cuja alma ausente vagava
pelo limbo do desinteresse.
Besouro e rapaz se encararam por um instante que pareceu
minutos completos, ambos imóveis como se um estivesse hipnotizado pela presença
do outro.
Sons abafados começaram a ecoar até que a criaturinha
levantou seu voo para o além, como um dardo lançado para uma das lâmpadas da
rua. Rapidamente, os ecos do ambiente se tornaram discerníveis: eram as vozes
dos outros três amigos na mesa. “Ei! Você está bem?”
O garoto piscou algumas vezes tentando discernir o ambiente
ao seu redor. Sua mente pareceu clarear como nunca antes em sua vida, e o
brilho da segurança iluminava seus olhos. Pôs as duas mãos sobre a mesa e,
notando que tinha para si as atenções perplexas de seus amigos, declarou em tom
solene:
“É isso. Vou tatuar o dragão”.
Levantou de sua cadeira, tomou de um só gole seu copo já
suado e morno de cerveja e, sem maiores explicações, foi embora, deixando para
trás os amigos confusos e imóveis, sem se preocupar com trivialidades mundanas
como a conta do bar.
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