Margeada por um rio de águas cristalinas, a cidade do Apego
era bela e imutável. Todos que nela nasciam, nela permaneciam. Brincavam entre
as árvores sempre carregadas de folhas verdes e comiam os frutos grandes e
suculentos que delas pendiam. A noite
voltavam para suas casas onde tinham comida sempre quente e o aconchego dos
familiares. Durante os dias todos tinham trabalho e nada tinham a reclamar. Era
sempre verão e o vento sempre soprava fresco e acolhedor.
Tudo era belo, calmo e previsível. Não havia mudanças. Nada
ali era novo nem velho. Tudo permanecia igual, em uma eterna e esperada rotina.
Nada era desagradável, nada surpreendia.
Aos finais de tarde todos se reuniam a beira do rio para
conversar e observar o pôr-do-sol.
- Somos tão privilegiados por morarmos aqui. – Um deles
falava enquanto tragava um cachimbo.
- Com certeza. Lugar melhor não há.
Enquanto os senhores descreviam as inúmeras qualidades e
vantagens de se viver em um lugar como aquele, como faziam todos os dias, um
garotinho de oito anos apenas fitava a outra margem do rio. Sua expressão era
pensativa.
- E o que tem do outro lado? – Perguntou.
- Não sei. – Respondeu um dos senhores. – Não preciso saber
o que existe lá uma vez que aqui nada me falta.
- Mas nunca ninguém foi? E se existirem dragões e bruxos do
outro lado?
- Não sei o que existe lá garoto e nem faço questão de ir
atrás para ver. Podem ter dragões que cospem ouro que eu não vou me interessar.
– Retrucou sem paciência, mas se conteve ao lembrar-se de algo. – Entretanto...
teve um maluco que cruzou até a outra margem sim.
- E o que ele viu?
- Não sei. Ele nunca mais voltou. Nadou até lá, gritou meia dúzia
de palavras e foi-se embora. Deve ter morrido de desgosto.
- E o que ele disse?
- Que a gente tinha medo de se molhar. Ridículo, não?
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