- Os olhos – disse o amigo sardento de cabelos desgrenhados
entre um gole e outro de cerveja. – ela tem olhos azuis. Ela é linda!
O outro olhava entediado para a própria cerveja, girando o
fundo do copo para ver a espuma se bagunçar enquanto a mão passeava pelo cabelo
negro e curto da própria cabeça.
- Eu tenho uma tia de setenta anos de olhos mais azuis que
os daquela guria, te apresento se você quiser. – Ao invés de rir da própria
piada, deixava os olhos vagarem entre copo e mesa. Como se sentia cansado...
Ele conhecia melhor que ninguém a beleza dos olhos. Os
apreciava como poucos, e os olhos que não saíam de sua mente não eram azuis, e
sim negros, grandes e expressivos. Olhos que contavam segredos que o universo
esconde.
- Você precisa parar com isso, cara – disse o amigo com um
tom de voz que beirava a irritação. – A sua vida não pode parar por conta
disso.
Não era apenas a expressão que o encantava, mas também o
engano. Os mais belos olhos falam da alma, mas muitas vezes mentem como nenhuma
palavra é capaz de fazê-lo. E que lindas mentiras aqueles olhos contavam...
- Esquece isso, cara. Se você gostou da guria vai lá. –
Levantou finalmente os olhos de sua cerveja e fitou os do amigo. – Eu não quero
que você tente corrigir minha vida, deixe o meu tempo passar. Tudo vai se
resolver e no final eu vou ficar bem. Não é a primeira vez.
Deliciosos e dopados nos mistérios da alma. Não há olhos tão
belos no mundo quanto aqueles que dizem o “eu te amo” que a boca finge entender
ao pronunciar. A boca que sorri sem os olhos é falsa, mas os olhos que sorriem
sem a boca são fascinantes.
- Entendi – disse o amigo com um sorriso resignado. – Vamos
mudar de assunto então.
Sim, ele conhecia melhor que ninguém a beleza dos olhos.
Melhor que ninguém ele entendia que isso não se esquece ou se enterra.
Eles remontam o tipo mais belo de pesadelo: o tipo escuro,
iluminado pelas luzes amareladas de uma rua deserta onde tudo é lindo, fugaz,
vazio e triste. Um dia deixariam de sê-lo para se tornarem uma de suas
lembranças inebriantes para suas epifanias em frente à chama da lareira em
alguma noite preguiçosa de sua aposentadoria. Até lá, seriam seu tesouro
perdido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário