Foi em um dia frio que o escritor viu passar em frente à sua
casa um carrinheiro, que buscava pacientemente seus pequenos tesouros de latas
e papelão nas lixeiras dos mais abastados. Não era a primeira vez que essa cena
acontecia, mas por algum motivo, nesse dia em específico, pareceu inspirar reflexão.
O escritor observava o homem de roupas amarrotadas e sujas
chegando, puxando seu carrinho pesado e com um cachorro toscamente preso à
armação de metal por uma guia mais curta que o pobre animal gostaria.
Aquilo era um quadro sobre a realidade: o homem de sua janela, em seu ambiente
aquecido e protegido, observando o outro, que não teve as mesmas oportunidades,
penar.
“Onde está o erro?” perguntou a si mesmo em um murmúrio. “O
que está errado com a sociedade?”. Tomou um longo gole de seu cálice de vinho e, com o olhar distante, deixou sua mente divagar.
Pensou em muitas questões. Seu otimismo, porém, o fazia
traçar soluções mentais. Dizia a si mesmo que o rumo natural da humanidade era
resolver os próprios problemas e minimizar as próprias mazelas. “A renda aos
poucos se distribui e a tecnologia barateia. O conhecimento se espalha e aos
poucos todos terão as mesmas oportunidades”.
Era fácil pensar nisso. Deu a seu filho no mês anterior um
aparelho, um telefone celular, que dentro de si carregava um mar de tecnologias
que à própria infância teriam parecido alienígenas, ou ao menos peças
reservadas a milionários. Hoje, o artefato era melhor, mais leve, mais bonito e
assombrosamente mais barato.
Na semana seguinte, os murmúrios divagadores e seu otimismo foram
respondidos, pois algo mudou. Em outra manhã fria, o mesmo carrinheiro, com o mesmo carrinho de
lixo e o mesmo cachorro, passava pegando suas peças de papelão em suas roupas
sujas e amarrotadas, mas dessa vez estava falando ao celular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário