A neblina se tornava cada vez mais espessa e pegajosa. Suas roupas estavam pesadas com a umidade e o suor. Sabia que estava chegando e só por isso continuava a caminhar.
Um flash lhe chamou a atenção. Um farol? A silhueta de uma pequena casa foi se formando a medida que se aproximava. Finalmente encontrara.
Os sininhos tocaram ao abrir a porta, recepcionando-o juntamente a uma onda de calor e aroma de canela. Estranhamente se sentia em casa.
Andou até um balcão no fundo e encontrou um senhorzinho encarando o teto com os olhos escancarados. Estaria dormindo? Teria morrido ali ha muito tempo?
Um ronco alto seguido por uma tosse seca eliminaram a segunda hipótese. Como se tivesse sentido a presença estranha ele abriu os olhos e o encarou o recém-chegado.
- Ora ora. Temos um cliente. - Seus profundos olhos verdes o fitavam. Pareciam estar lendo sua mente como quem lê uma etiqueta de supermercado. - Você veio em busca de algo incomum.
O estranho apenas o encarou enquanto ele saia para o fundo da loja e retornava com uma caixa cheia de frascos.
- Pois bem. - Disse colocando a caixa a frente dele. - Escolha.
A confusão tomou conta dos olhos do rapaz.
- Eu gostaria de comprar felicidade. Qual deles devo escolher?
- O que for felicidade para você, oras. - Disse apontando o dedo enrugado para o frasco verde claro. - Felicidade pode ser dinheiro. Ou sucesso. Amor, talvez? - girou o vermelho sangue entre os dedos e então colocou-o do lado de um amarelo. - Prazeres. Muitas pessoas que vem atras de felicidade levam esse.
- Mas eu estou procurando apenas felicidade. Nada mais.
O velho analisou o rapaz por alguns segundos, mas dessa vez o lia como um livro, daqueles densos e complicados que você tenta evitar na escola.
Em algum ponto seus olhos pareceram chegar a uma conclusão porque deu um longo suspiro, colocou a mão no bolso e lhe entregou algo.
- Espero que faça bom uso.
O rapaz olhou sem entender e perguntou quanto lhe devia, mas o velho voltara a posição inicial, ressonando em um sono tão profundo que parecia nunca ter acordado.
Olhou o pequeno frasco em sua mão. Estava vazio. Olhou mais de perto. Ou será que estava cheio de algo que não podia ver?
Encarou os olhos verdes escancarados por alguns segundos.
O que era a felicidade para ele? O que ele esperava que estivesse dentro do frasco? O que ele estivera procurando durante tanto tempo?
Sem realmente chegar a uma conclusão, guardou o frasco no bolso e saiu novamente para a massa solida e úmida de neblina que o aguardava lá fora.
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