Como é fantástico olhar tudo do alto. Não importa quais
sejam os meios. Seja aquela visão distante de um avião, na qual podemos ver
tudo junto como uma massa disforme, sem nenhum foco. Ou mesmo a visão da visão
do alto da torre mais alta, de onde, com um pouco de esforço, conseguem se
distinguir algumas pessoas e, mais importante, com um pouco de imaginação
conseguem criar os mais mirabolantes cenários e roteiros dignos de filmes.
Olhar de uma janela do décimo quinto andar então. Que
maravilha olhar as 'pessoinhas' andando de um lado para o outro como pequenas
formigas, seguindo rotas aparentemente aleatórias. Apenas aparentemente.
Mas nada se compara à visão do terceiro andar. É. Imagino que essa seja a altura ideal,
talvez, no máximo, do quarto andar. De lá já é possível saber quem é quem.
Deve ser esta a linha de raciocínio que passa pela cabeça de Dona Alba. Passa horas
sentada ali, em sua poltrona na janela do seu pequeno apartamento. Localizado
no terceiro andar de um velho prédio de tijolos aparentes, daqueles bem
estreitos, com janelas generosas. É uma ótima poltrona, a julgar pelo tempo em
que Dona Alba passa sentada nela todos os dias.
De lá que ela passa o dia observando tudo e todos que sua
vista alcança. Ela saberia contar as histórias de todos que moram nos
arredores. A que horas fulano passa voltando às pressas do trabalho para
encontrar sua esposa, que está grávida (sim, é possível ver a janela de seu
quarto, onde ela permanece deitada, devido ao avançado estado da gravidez). Logo
ele estará voltando para casa, pelo mesmo caminho. Mas então o esperará uma
criança linda, a julgar pela aparência dos pais.
De lá ela percebe a hora onde os cafés e restaurantes do
térreo e os jovem brotam das esquinas para comer uma deliciosa pizza com vinho,
uma deliciosa pasta, ou mesmo saborear um café depois de um dia todo
trabalhando e enfrentando o típico transito caótico. Todos os dias aparece
algum tipo interessante. Como aquele casal jovem que, agora mesmo, anda devagar
rua acima, procurando um lugar para comer. São novos por lá, e já são alvo do
olhar bisbilhoteiro de Dona Alba. Como muitos antes, eles passam falando algum
idioma que ela não conhece. Devem ser de alguma outra região, o que é frequente
em uma Cidade tão grande.
Ela não se cansa olhar. Quando seu corpo não aguenta mais,
ela adormece na própria cadeira e, pela manhã, toma um café fraco insosso
preparado pela sua cuidadora e volta a olhar pela janela esperando as histórias
acontecerem.
No fundo, esperando que, com um pouco de sorte, sua história
possa acontecer.
Em vão.
Todos os dias acordará sentada na mesma poltrona, tomará o
mesmo café sem gosto, e ficará ali, sentada. Esperando alguém entrar em seu
apartamento para tirá-la deste estado inerte de espera por um milagre, uma
oração e pela misericórdia de alma, que não fez nada de ruim.
Que não fez nada.
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