Logo ali, atrás daquele mato baixo, escondia-se a praia. A praia em si, com aquela areia fina e aquele mar musical e brilhante, era um mundo inteiramente novo.
Seu som deixava rastro, guiando os ouvintes distraídos para sua direção. De repente, logo após aquele mato, uma pequena descida... e o horizonte.
O deslumbramento desconcerta os olhos, acostumados com as curtas paisagens urbanas. Ali via-se até onde era possível ver - até onde a curvatura da terra permitia. Nada de intermediários, interposições ou interrupções.
Dali era possível ver o céu inteiro, aos quatro pontos cardeais, e observar a chuva chegando, caminhando do horizonte embaçado, até fazer desaparecer as árvores mais próximas e as primeiras gotas começarem a cair aos braços despreocupados.
Podia-se presenciar as mais exuberantes combinações de cores, luzes, nuvens e astros no céu. Era incrível como às vezes faz sol logo ali, na ilha defronte, mas na areia, de onde se observa, está escuro. A ilha parecia recortada de outro quadro e colada ali, como as pinturas contemporâneas.
Aos surrealistas, particularmente, agradariam as nuvens. Engraçado, quando se é criança, costuma-se representá-las com contornos arredondados, bem definidos e uniformes. Mas as nuvens não eram assim. Um olhar livre por aquele céu desconstruía aqueles desenhos de histórias em quadrinhos, diante da espontaneidade daquelas manchas altas e coloridas. Pequenas e jogadas, grandes e soltas, ou às vezes tão juntas que pareciam uma só massa branco acinzentada.
Parecia que, naquele céu, também havia mais arco-íris e estrelas. Como era tão diferente daquele da cidade, a uma hora dali?
Mas era o mar que mais espantava. A paisagem toda se bastava naquele som e imensidão. Com eles, poder-se-ia completar idas e vidas, quantas existirem pelos próximos séculos. Aquele mar abrigava os mais variados pensamentos, campo fértil para o nascimento e para a morte de outros tantos. Era o lazer de alguns, o sustento de outros. E quantas histórias o perpassariam...
Somente ali podia-se sentir o verdadeiro fulgor da natureza. O vento soprava desimpedido, e uma mudança em sua força ou direção sinalizava toda uma onda de alterações no ambiente. O céu e o mar mudariam de cor, e este se tornaria mais calmo ou mais agitado, limparia ou ficaria mais correntoso. Quando uma tempestade chega, não encontra obstáculo algum. Não há como se esquivar aqui; o único caminho era enfrentá-la. Do sol, os únicos abrigos eram as árvores e as casas. Ali, na beira-mar, era possível ficar ao sol à vontade, com os pés descalços na areia e o corpo pouco coberto, tudo bem arejado.
Passando aquele mato, parecia que tudo se transformava, até as pessoas. Tem coisa que só se faz ali, nasce e morre ali. E tem coisa que fica, às vezes adormecida, às vezes viva até o próximo verão. O inverno é longo e dificulta a sobrevida dessas coisas. Mal suspiram a maresia e já são reconduzidas à hibernação. Xô, andorinhas, xô, e não voltem antes do fim do ano. Do lado de cá, a roda gira, e gira sem parar. Mas do lado de lá, logo ali, atrás daquele mato baixo, escondem-se coisas esquecidas no giro veloz.
Consigo visualizar cada detalhe, cada cena que você descreve. Esse é um texto gostoso, pra ler devagar. ^^ Muito bom!
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